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Assédio Moral

  Personalidade da v√≠tima
O papel da personalidade da vítima no processo de assédio moral tem sido realçado, de forma diversa, pelos diferentes investigadores. Assim, enquanto alguns autores têm tentado identificar determinados traços de personalidade, no sentido de preverem a ocorrência de assédio moral, outros argumentam que algumas das características apresentadas pelas vítimas podem ser, de igual modo, um efeito do processo de vitimação e não a sua causa. Efectivamente muitos dos traços encontrados nas vítimas de assédio moral, como seja baixa auto-estima, neuropatia e afectividade negativa são tipicamente sequelas psicológicas resultantes de processos de vitimação.

Alguns estudos emp√≠ricos suportam esta perspectiva de que alguns indiv√≠duos s√£o mais vulner√°veis do que outros, porque s√£o pouco assertivos, exibem baixa auto-estima e s√£o incapazes de se defenderem, pelos seus pr√≥prios meios. Logo, os autores conclu√≠ram que os tra√ßos de personalidade podem indicar quem √© que, numa organiza√ß√£o, tem maior probabilidade de ser alvo de uma situa√ß√£o de ass√©dio e as raz√Ķes pelas quais esses indiv√≠duos se tornam v√≠timas.

No entanto, os alvos de ass√©dio moral s√≥ se tornar√£o v√≠timas se, no decorrer do processo, forem incapazes de se defenderem ou se forem incapazes de escapar da situa√ß√£o devido a qualquer forma de depend√™ncia relativamente √† outra parte; esta poder√° ser de natureza econ√≥mica (no caso de do agressor ser hierarquicamente superior), social (rela√ß√Ķes de poder, perten√ßa a um grupo), de natureza f√≠sica (for√ßa f√≠sica) ou de natureza psicol√≥gica (auto-estima, personalidade, capacidade cognitiva).

Por √ļltimo, os antecedentes individuais n√£o s√≥ podem desempenhar um papel no despoletar de um processo de ass√©dio como ainda desempenhar um papel relevante na escalada do conflito. Os investigadores compararam as estrat√©gias seguidas pelas v√≠timas que foram bem sucedidas (aquelas cuja situa√ß√£o global melhorou substancialmente) e as v√≠timas que n√£o foram bem sucedidas (aquelas cuja situa√ß√£o laboral foi ficando cada vez pior com o decorrer do tempo apesar das suas tentativas de lidarem com a situa√ß√£o) e verificaram que as v√≠timas bem sucedidas evitavam cometer erros ou exibir comportamentos, que se podiam virar contra elas (e.g. absentismo frequente, envolvimento em conflitos laborais).
Normalmente, as v√≠timas n√£o percepcionam ter qualquer envolvimento pessoal na emerg√™ncia de uma situa√ß√£o de ass√©dio no trabalho, considerando-se a si pr√≥prias como trabalhadoras esfor√ßadas e mal avaliadas pelo grupo, pelo sistema ou como tendo pouca sorte; quando inquiridas sobre a sua percep√ß√£o acerca das eventuais raz√Ķes para a ocorr√™ncia de ass√©dio, referem tanto factores s√≥cio-ambientais como as caracter√≠sticas do agressor.

De forma geral, parecem existir diversas situa√ß√Ķes em que as caracter√≠sticas individuais assumem um papel dominante no desenrolar do processo de ass√©dio moral:

1) A posição de exposição da vítima;

2) Desempenho superior à média e conflito com as normas do grupo;

3) Défices de auto-estima e de competências sociais;

4) Reivindicação do papel de vítima.

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1) Posição de exposição da vítima

A exposi√ß√£o social da v√≠tima pode constituir um factor de risco potencial para a ocorr√™ncia de ass√©dio moral no local de trabalho. Assim, enquanto as mulheres registam taxas de vitima√ß√£o mais elevadas do que os homens em profiss√Ķes ou organiza√ß√Ķes tipicamente masculinas, os homens que trabalham em sectores de actividade ou profiss√Ķes tipicamente femininas, como o caso do sector de puericultura (cuidados infantis), registam taxas de vitima√ß√£o anormalmente elevadas. Por exemplo, num estudo realizado num jardim-de-inf√Ęncia, com uma popula√ß√£o maioritariamente feminina, verificou-se que os educadores do sexo masculino, ao constitu√≠rem um grupo minorit√°rio, estavam mais frequentemente entre as v√≠timas de ass√©dio moral do que as educadoras do sexo feminino. De forma an√°loga, a investiga√ß√£o sobre processos grupais sugere que os indiv√≠duos que se destacam em qualquer aspecto, ou que s√£o diferentes do resto do grupo, apresentam um risco adicional de arranjar ‚Äúatritos‚ÄĚ com os outros elementos e de serem mesmo for√ßados a encarnar o papel de ‚Äúbode expiat√≥rio‚ÄĚ.

As caracter√≠sticas demogr√°ficas tamb√©m podem ajudar a compreender porque √© que alguns empregados apresentam uma maior probabilidade de serem v√≠timas de ass√©dio moral no local de trabalho. Especificamente, o estatuto social, ser diferente do normal ou pertencer a uma minoria √©tnica surgem como factores de risco. Por exemplo, tanto os membros de categorias √©tnicas ‚Äún√£o-brancas‚ÄĚ como os empregados com incapacidades, cujos sal√°rios s√£o subsidiados pelo estado, evidenciam taxas de vitima√ß√£o mais elevadas. Do mesmo modo, pertencer a um g√©nero sub-representado parece ser, tamb√©m, um factor de risco adicional. Adicionalmente, tem-se verificado que as minorias √©tnicas, as quais s√£o percebidas como tendo menor status social, registam um maior n√≠vel de stress perante um comportamento negativo ou hostil do que inquiridos pertencentes a grupos n√£o minorit√°rios.

2) Desempenho elevado e conflito com as normas do grupo

Diversos estudos parecem identificar, nos indiv√≠duos v√≠timas de ass√©dio moral, um padr√£o comportamental relacionado com ‚Äún√≠vel de desempenho e escr√ļpulos elevados‚ÄĚ. Assim, de acordo com a investiga√ß√£o emp√≠rica existente, as v√≠timas revelam ser mais conscientes, mais orientadas para objectivos, mais cumpridoras das normas, mais honestas pontuais e cuidadosas, caracter√≠sticas que as podem tornar aborrecidas e causar frustra√ß√£o nos seus colegas de trabalho, fazendo despoletar comportamentos agressivos por parte dos mesmos.

Em alguns casos, as v√≠timas podem mesmo ser altamente qualificadas e ter uma larga experi√™ncia; a quest√£o que surge √© que chocam com as normas do grupo a que pertencem, muitas vezes porque sabem fazer melhor as coisas, insistem na sua perspectiva e simultaneamente t√™m dificuldades em tomar a perspectiva dos outros. Deste modo, por um lado, ao assumirem uma posi√ß√£o de critica, podem constituir uma amea√ßa constante para os seus colegas e superiores hier√°rquicos; por outro, ao superarem as regras do grupo, podem estar a desafiar os padr√Ķes normais de performance do grupo de trabalho, as suas normas informais e privil√©gios. Em alguns casos, do ponto de vista do empregador, elas podem at√© ser ‚Äúos bons rapazes‚ÄĚ mas, na pr√°tica, como a gest√£o est√° mais dependente do grupo do que da v√≠tima, tem tend√™ncia para assumir a perspectiva do grupo, em caso de conflito.

3) A vítima vulnerável: competência social e auto-estima

A vis√£o predominante, relativamente √†s caracter√≠sticas da v√≠tima √©, sem d√ļvida, a cren√ßa de que algumas pessoas s√£o mais vulner√°veis a situa√ß√Ķes de ass√©dio moral do que outras porque s√£o menos assertivas, s√£o menos capazes de se defenderem pelos seus pr√≥prios meios e s√£o incapazes de gerirem situa√ß√Ķes de conflito de uma forma construtiva, sendo portanto encaradas como as v√≠timas ‚Äúnaturais‚ÄĚ de ass√©dio moral.
Alguns investigadores tentaram encontrar evid√™ncia emp√≠rica neste sentido e os resultados obtidos mostraram que, n√£o obstante existirem grupos heterog√©neos de v√≠timas, havia um grupo que correspondia ao que era expect√°vel pelos investigadores: indiv√≠duos com baixas compet√™ncias sociais, com deficientes capacidades de gest√£o de conflitos, assertividade e personalidade ‚Äúfraca‚ÄĚ. Adicionalmente, mostraram que as v√≠timas de ass√©dio moral eram caracterizadas por baixa auto-estima, revelavam-se ansiosos em ambientes sociais e tinham baixas compet√™ncias sociais. Verificou-se ainda existir um relacionamento positivo entre ass√©dio moral, personalidade neur√≥tica e uma auto-imagem negativa.

Num estudo realizado na Noruega foram identificados tr√™s grupos est√°veis de v√≠timas: um grupo de ‚Äúseriamente afectados‚ÄĚ, outro grupo de ‚Äúafectados dentro dos par√Ęmetros normais‚ÄĚ e um terceiro grupo de ‚Äúdesapontados e depressivos‚ÄĚ. Enquanto o primeiro grupo registava um amplo leque de problemas e sintomas psicol√≥gicos e emocionais, o segundo grupo n√£o apresentava nenhum sintoma psicol√≥gico particular de natureza neur√≥tica ou psic√≥tica. No entanto, enquanto o segundo grupo registava exposi√ß√£o a um amplo leque de comportamentos espec√≠ficos de ass√©dio moral, o anterior registava exposi√ß√£o a um menor n√ļmero de comportamentos. O √ļltimo grupo, com caracter√≠sticas depressivas e, de alguma forma, paran√≥icas, era constitu√≠do pelas v√≠timas que, nesse momento, estavam a ser alvo de ass√©dio. Os autores interpretaram estes resultados como sendo indicativos de um factor de vulnerabilidade num grupo espec√≠fico de v√≠timas.

4) Reivindicação do lugar de vítima

Existe alguma evidência empírica no sentido de que as vítimas de assédio moral têm reticências em classificar-se enquanto tal, especialmente se os comportamentos de assédio assumirem a forma de comportamentos mais subtis, de baixa intensidade e de natureza indirecta. Dado que declarar-se vítima implica uma menor aceitação por parte de colegas e superiores hierárquicos, poder-se-á pensar que há uma tendência no sentido de sub-estimar os valores de incidência de assédio moral.

No entanto, e apesar dos efeitos negativos mencionados, existem raz√Ķes para acreditar que o facto de uma pessoa se intitular ‚Äúv√≠tima‚ÄĚ tamb√©m pode ter efeitos positivos. Dado que o entendimento p√ļblico dominante, em muitos pa√≠ses europeus, √© o de que ‚Äúuma v√≠tima inocente √© assediada e importunada por agressores ou por uma organiza√ß√£o injusta‚ÄĚ, o facto de um indiv√≠duo se assumir como ‚Äúv√≠tima‚ÄĚ pode servir objectivos pessoais (e.g. reforma antecipada ou ganhar um caso de despedimento sem justa causa, em tribunal). Adicionalmente, o status de v√≠tima pode ser utilizado como uma auto-justifica√ß√£o em diversos aspectos: uma v√≠tima n√£o inicia nem faz escalar uma situa√ß√£o de conflito: a v√≠tima √© inocente e encontra-se numa situa√ß√£o de impot√™ncia, enquanto o agressor √© culpado e injusto. Neste caso, o estatuto de v√≠tima pode ser utilizado para proteger a auto-estima.

Resumindo, se por um lado existe o problema epidemiol√≥gico das v√≠timas de ass√©dio moral tentarem esconder o seu estatuto de ‚Äúv√≠timas‚ÄĚ, por outro lado, existe a possibilidade de alguns indiv√≠duos passaram a utilizar o termo de ass√©dio moral para atingirem os seus objectivos pessoais, o que significa que nem todas as pessoas que se auto-intitulam de v√≠timas s√£o na realidade v√≠timas de ass√©dio no local de trabalho.
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